


Cláudia Jordão
A dramaturga e escritora paulista, Cláudia Jordão é a nossa convidada desta edição. Ela descreve aqui, neste espaço, sobre um tema que, por meio do teatro, explora as várias questões de gênero.
Cláudia é autora de vários livros e coordena o coletivo de mulheres - Elas, uma escrita de si - onde, uma vez por mês promove um encontro para tratar os diversos assuntos pertinentes a elas. Abaixo, veja como foi o processo, nas palavras de Cláudia e de algumas participantes do encontro.
Elas, uma escrita de si - Diário de Travessia
Aqui, registro o caminho que percorremos — palavra por palavra, corpo por corpo, silêncio por silêncio — para que essa travessia não exista apenas no instante do encontro, mas permaneça como documento sensível do que criamos coletivamente.
“Eu pensei: eu acho que ainda não assisti uma peça de teatro que fale sobre papéis de gênero e educação. Se eu não conheço, acho que eu posso escrever.” - Denise Hyginio.
Teatro colaborativo e a escuta como princípio
Denise começou nos falando sobre o processo de criação do espetáculo Flores Brancas, da Cia do Flores, em que assino a dramaturgia, mas foi construído a muitas mãos, entre elas a de Denise Hyginio, que atuou como dramaturgista durante o processo.
O espetáculo foi criado a partir da escuta dos corpos, dos relatos e de documentos sobre vidas lésbicas. O ponto de partida foi justamente a escuta como princípio dramático — não apenas como técnica, mas como gesto político. Em nossa conversa, relembrei que o processo de dramaturgia do espetáculo não era sobre mim efetivamente, mas a partir do corpo da Denise, da Dani, da Fran, da Mica… e de um documento que fala sobre lesbocídio.
Batemos um papo inicial sobre como essa dramaturgia nasce da experiência sensível coletiva, onde cada voz foi ouvida e transformada em material poético pra cena. “Flores Brancas é um processo colaborativo. A figura da Clau como dramaturga estava ali, com a antena ligada, para entender o que esse coletivo queria falar.”
Cartas à jovem lésbica: escrever, reencontrar, libertar
Denise leu um trecho da dramaturgia do espetáculo, que foi criado a partir de uma carta imaginada à jovem lésbica que um dia foi:
“Quando eu tinha 16 anos, eu recebi um bilhete… No pedaço de papel tinha uma pergunta: ‘É porque você gosta de meninas?’ Meu choro compulsivo de horas não deu espaço para respostas sonoras, mas deu espaço para uma escuta revolucionária.”
Esse gesto de escrita — de olhar para si mais jovem e responder com afeto e verdade — foi posto como um exercício de escrita de si que reflete um gesto íntimo, político e transformador.
Invisibilidade e visibilidade — teatro como gesto de resistência
Denise nos conduziu por uma reflexão poderosa sobre o que significa ser visível — ou negada na visibilidade — dentro de um sistema que cria categorias normativas: “Quando a gente fala de experiências lésbicas, a gente tá falando sobre a invisibilidade… o sistema heterossexual é uma estrutura de poder.”
Ela lembrou que falar sobre dor é necessário, mas ir além dela — para vislumbrar outras possibilidades — é também um gesto de resistência:
“A gente precisa mexer ali para trazer um foco naquilo que está sendo invisibilizado.”
As Jardineiras — pesquisa, educação e escrita como processo
Na segunda parte do encontro, Denise compartilhou o processo de pesquisa e escrita da dramaturgia As Jardineiras – uma peça em cinco atos letivos, desenvolvida ao longo de aproximadamente quatro anos. O texto nasce em um laboratório de dramaturgia para mulheres, em 2019, mas se expande a partir da experiência concreta de Denise como educadora. A sala de aula surge não apenas como cenário, mas como campo de observação, fricção e disputa simbólica — lugar onde teatro e educação se atravessam continuamente. “Eu fui parar na educação porque fiz teatro. E hoje eu não sei onde uma coisa termina e a outra começa.”
A escrita da peça foi atravessada por pesquisa teórica — especialmente estudos feministas sobre educação, gênero e trabalho reprodutivo —, articulada a uma escuta atenta do cotidiano escolar: as falas das crianças, os protocolos institucionais, os atravessamentos de classe, raça e gênero que moldam o espaço educativo. Nesse processo, Denise destacou a atenção às crianças queer — corpos e subjetividades que escapam às normas de gênero antes mesmo de nomeá-las, e que, justamente por isso, são frequentemente corrigidas, silenciadas ou punidas pela instituição escolar.
“As crianças rompem com as categorias antes mesmo de saber que elas existem. E sofrem por isso.”
A escola aparece, então, como um dos primeiros espaços de organização do sistema heterossexual, reflexão que dialoga diretamente com o pensamento de Monique Wittig, para quem a heterossexualidade opera como regime político. “A escola é um lugar onde o sistema heterossexual começa a ser organizado muito cedo.”
Denise contou que a dramaturgia foi sendo escrita em camadas, entre pausas e retomadas, permitindo que o texto amadurecesse junto com sua própria experiência como professora. A escrita não buscava explicar a educação, mas produzir pensamento a partir da prática, em diálogo com autores que compreendem o saber como experiência viva. Nesse sentido, o pensamento de Paulo Freire atravessa o processo como ética e método: a educação como prática de escuta, consciência crítica e transformação, em oposição a modelos normativos e autoritários. “Eu precisava de tempo para entender o que aquele material estava me pedindo.”
A pesquisa também se aproxima das reflexões de Paul B. Preciado, especialmente no que diz respeito aos regimes de controle dos corpos, à produção das identidades e às tecnologias de normalização que operam desde a infância. As personagens Rosa e Lis surgem, assim, como figuras atravessadas por essas tensões: professoras que habitam a escola entre o cuidado e a vigilância, entre o afeto e a norma, submetidas a uma lógica que desvaloriza o trabalho docente e infantiliza a figura da professora, reduzida à “tia”.
Poética e ruptura: textos botânicos como fendas
Ao longo do processo, Denise percebeu que o realismo dramático já não dava conta das contradições que emergiam do material. É nesse ponto que surgem os textos botânicos — fragmentos poéticos que interrompem o drama e instauram outro regime de linguagem. “Eu precisava romper o drama. Precisava dizer coisas que o diálogo não daria conta.” A planta que cresce na sala de aula, apesar das tentativas de controle, passa a operar como metáfora central da peça: a vida que insiste, a infância que escapa às normativas, a fenda que se abre dentro da estrutura.
“A fenda vira personagem. Aquilo que cresce apesar de.” As Jardineiras não se propõe a oferecer respostas, mas a tensionar perguntas sobre educação, gênero, cuidado, poder e resistência. Para Denise, a dramaturgia permanece como campo aberto — um convite à reescrita, à encenação e à escuta.
“A dramaturgia só se completa quando encontra outros corpos.”
Uma prática de escrita
Denise propôs um exercício de escrita que não foi realizado durante o encontro, mas apresentado como atividade a ser desenvolvida em outro momento, escolhido pelas participantes. A proposta partia de três perguntas feitas a um documento. A resposta a uma dessas perguntas daria origem ao tema de uma cena, que deveria conter três personagens. Por fim, a sugestão era criar uma sinopse do que poderia ser uma história construída a partir desses elementos.
O exercício de Priscila Fonseca
“Um sonho recorrente une as duas meninas em uma mesma realidade com 100 anos de diferença. Elas se reconhecem pela semelhança física e pelos olhares trocados. Não falam nada uma com a outra, mas sentem que estão unidas pela sensação de paz e identificação provocada pelo rio. A indígena olha as estrelas enquanto boia e se satisfaz ao pensar que sua descendente irá olhar o céu daquele mesmo lugar, ta como ela, e ver as mesmas estrelas, de modo que isso a fará lembrar desses encontros provenientes dos sonhos. A menina olha a indígena boiando e questiona que fragmentos/permanências dessa ancestral ela carrega em si.” O exercício da Priscila Fonseca foi realizado a partir de um desenho de sua filha.
Uma escrita que continua
Ao final, como sempre, deixamos a palavra aberta para perguntas e trocas. O encontro com Denise nos mostrou que escrever é estar em diálogo — conosco e com o outro — que o teatro pode ser um campo de invenção de si e que a escrita de si pode ser também uma escritura coletiva.
“Não sei se dá para terminar. Porque esse texto que a gente traz para o mundo nunca para de se escrever.”
Encerro essa escrita com muita gratidão à Denise pela presença e por essa partilha generosa.
Com afeto,
Claudia Jordão



